sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Custo Brasil ou Lucro Brasil?

Noticia original:

http://www.autoinforme.com.br/noticias.asp?id_noticia=10726&id_tipo_noticia=2&id_secao=6

Lucro Brasil faz consumidor pagar o carro mais caro do mundo

"Por que baixar o preço se o consumidor paga?", pergunta um executivo de montadora
  • Texto: Joel Leite/AutoInforme
(29-06-11) - O Brasil tem o carro mais caro do mundo. Por quê? Os principais argumentos das montadoras para justificar o alto preço do automóvel vendido no Brasil são a alta carga tributária e a baixa escala de produção. Outro vilão seria o alto valor da mão de obra, mas os fabricantes não revelam quanto os salários - e os benefícios sociais - representam no preço final do carro. Muito menos os custos de produção, um segredo protegido por lei. 

A explicação dos fabricantes para vender no Brasil o carro mais caro do mundo é o chamado Custo Brasil, isto é, a alta carga tributária somada ao custo do capital, que onera a produção. Mas as histórias que você verá a seguir vão mostrar que o grande vilão dos preços é, sim, o Lucro Brasil. Em nenhum país do mundo onde a indústria automobilística tem um peso importante no PIB, o carro custa tão caro para o consumidor. 

A indústria culpa também o que chama de Terceira Folha pelo aumento do custo de produção: os gastos com funcionários, que deveriam ser papel do estado, mas que as empresas acabam tendo que assumir como condução, assistência médica e outros benefícios trabalhistas. 

Com um mercado interno de um milhão de unidades em 1978, as fábricas argumentavam que seria impossível produzir um carro barato. Era preciso aumentar a escala de produção para, assim, baratear os custos dos fornecedores e chegar a um preço final no nível dos demais países produtores. 

Pois bem: o Brasil fechou 2010 como o quinto maior produtor de veículos do mundo e como o quarto maior mercado consumidor, com 3,5 milhões de unidades vendidas no mercado interno e uma produção de 3,638 milhões de unidades. 

Três milhões e meio de carros não seria um volume suficiente para baratear o produto? Quanto será preciso produzir para que o consumidor brasileiro possa comprar um carro com preço equivalente ao dos demais países? 

Segundo Cledorvino Belini, presidente da Anfavea, é verdade que a produção aumentou, mas agora ela está distribuída em mais de 20 empresas, de modo que a escala continua baixa. Ele elegeu um novo patamar para que o volume possa propiciar uma redução do preço final: cinco milhões de carros. 

A carga tributária caiu 

O imposto, o eterno vilão, caiu nos últimos anos. Em 1997, o carro 1.0 pagava 26,2% de impostos, o carro com motor até 100hp recolhia 34,8% (gasolina) e 32,5% (álcool). Para motores mais potentes o imposto era de 36,9% para gasolina e 34,8% a álcool. 

Hoje - com os critérios alterados - o carro 1.0 recolhe 27,1%, a faixa de 1.0 a 2.0 paga 30,4% para motor a gasolina e 29,2% para motor a álcool. E na faixa superior, acima de 2.0, o imposto é de 36,4% para carro a gasolina e 33,8% a álcool. 

Quer dizer: o carro popular teve um acréscimo de 0,9 ponto percentual na carga tributária, enquanto nas demais categorias o imposto diminuiu: o carro médio a gasolina paga 4,4 pontos percentuais a menos. O imposto da versão álcool/flex caiu de 32,5% para 29,2%. No segmento de luxo, o imposto também caiu: 0,5 ponto no carro e gasolina (de 36.9% para 36,4%) e 1 ponto percentual no álcool/flex. 

Enquanto a carga tributária total do País, conforme o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, cresceu de 30,03% no ano 2000 para 35,04% em 2010, o imposto sobre veículo não acompanhou esse aumento. 

Isso sem contar as ações do governo, que baixou o IPI (retirou, no caso dos carros 1.0) durante a crise econômica. A política de incentivos durou de dezembro de 2008 a abril de 2010, reduzindo o preço do carro em mais de 5% sem que esse benefício fosse totalmente repassado para o consumidor. 

As montadoras têm uma margem de lucro muito maior no Brasil do que em outros países. Uma pesquisa feita pelo banco de investimento Morgan Stanley, da Inglaterra, mostrou que algumas montadoras instaladas no Brasil são responsáveis por boa parte do lucro mundial das suas matrizes e que grande parte desse lucro vem da venda dos carros com aparência fora de estrada. Derivados de carros de passeio comuns, esses carros ganham uma maquiagem e um estilo aventureiro. Alguns têm suspensão elevada, pneus de uso misto, estribos laterais e para choque saliente. Outros têm faróis de milha e, alguns, o estepe na traseira, o que confere uma aparência mais esportiva. 

A margem de lucro é três vezes maior que em outros países 

O Banco Morgan concluiu que esses carros são altamente lucrativos, têm uma margem muito maior do que a dos carros dos quais são derivados. Os técnicos da instituição calcularam que o custo de produção desses carros, como o CrossFox, da Volks, e o Palio Adventure, da Fiat, é 5 a 7% acima do custo de produção dos modelos dos quais derivam: Fox e Palio Weekend. Mas são vendidos por 10% a 15% a mais. 

O Palio Adventure (que tem motor 1.8 e sistema locker), custa R$ 52,5 mil e a versão normal R$ 40,9 mil (motor 1.4), uma diferença de 28,5%. No caso do Doblò (que tem a mesma configuração), a versão Adventure custa 9,3% a mais. 

O analista Adam Jonas, responsável pela pesquisa, concluiu que, no geral, a margem de lucro das montadoras no Brasil chega a ser três vezes maior que a de outros países. 

O Honda City é um bom exemplo do que ocorre com o preço do carro no Brasil. Fabricado em Sumaré, no interior de São Paulo, ele é vendido no México por R$ 25,8 mil (versão LX). Neste preço está incluído o frete, de R$ 3,5 mil, e a margem de lucro da revenda, em torno de R$ 2 mil. Restam, portanto R$ 20,3 mil. 

Adicionando os custos de impostos e distribuição aos R$ 20,3 mil, teremos R$ 16.413,32 de carga tributária (de 29,2%) e R$ 3.979,66 de margem de lucro das concessionárias (10%). A soma dá R$ 40.692,00. Considerando que nos R$ 20,3 mil faturados para o México a montadora já tem a sua margem de lucro, o Lucro Brasil (adicional) é de R$ 15.518,00: R$ 56.210,00 (preço vendido no Brasil) menos R$ 40.692,00. 

Isso sem considerar que o carro que vai para o México tem mais equipamentos de série: freios a disco nas quatro rodas com ABS e EBD, airbag duplo, ar-condicionado, vidros, travas e retrovisores elétricos. O motor é o mesmo: 1.5 de 116cv. 

Será possível que a montadora tem um lucro adicional de R$ 15,5 mil num carro desses? O que a Honda fala sobre isso? Nada. Consultada, a montadora apenas diz que a empresa não fala sobre o assunto. 

Na Argentina, a versão básica, a LX com câmbio manual, airbag duplo e rodas de liga leve de 15 polegadas, custa a partir de US$ 20.100 (R$ 35.600), segundo o Auto Blog. 

Já o Hyundai ix35 é vendido na Argentina com o nome de Novo Tucson 2011 por R$ 56 mil, 37% a menos do que o consumidor brasileiro paga por ele: R$ 88 mil. 

Porque o mesmo carro é mais barato na Argentina e no Chile? 

A ACARA, Associacion de Concessionários de Automotores De La Republica Argentina, divulgou em fevereiro, no congresso dos distribuidores dos Estados Unidos (N.A.D.A), em São Francisco, os valores comercializados do Corolla nos três países. No Brasil o carro custa U$ 37.636,00, na Argentina U$ 21.658,00 e nos EUA U$ 15.450,00. 

O consumidor paraguaio paga pelo Kia Soul U$ 18 mil, metade do preço do mesmo carro vendido no Brasil. Ambos vêm da Coreia. Não há imposto que justifique tamanha diferença de preço. 

Outro exemplo de causar revolta: o Jetta é vendido no México por R$ 32,5 mil. No Brasil esse carro custa R$ 65,7 mil. 

Quer mais? O Gol I-Motion com airbags e ABS fabricado no Brasil é vendido no Chile por R$ 29 mil. Aqui custa R$ 46 mil. 

A Volkswagen não explica a diferença de preço entre os dois países. Solicitada pela reportagem, enviou o seguinte comunicado: 

As principais razões para a diferença de preços do veículo no Chile e no Brasil podem ser atribuídas à diferença tributária e tarifária entre os dois países e também à variação cambial. 

Questionada, a empresa enviou nova explicação: 

As condições relacionadas aos contratos de exportação são temas estratégicos e abordados exclusivamente entre as partes envolvidas. 

Nenhum dirigente contesta o fato de o carro brasileiro ser caro, mesmo considerando o preço FOB: o custo de produção, sem a carga tributária.

Mas o assunto é tão evitado que até mesmo consultores independentes não arriscam falar, como o nosso entrevistado, um ex-executivo de uma grande montadora, hoje sócio de uma consultoria, e que pediu para não ser identificado. 

Ele explicou que no segmento B do mercado, onde estão os carros de entrada, Corsa, Palio, Fiesta, Gol, a margem de lucro não é tão grande, porque as fábricas ganham no volume de venda e na lealdade à marca. Mas nos segmentos superiores o lucro é bem maior. 

O que faz a fábrica ter um lucro maior no Brasil do que no México, segundo consultor, é o fato do México ter um mercado mais competitivo.

City é mais barato no México do que no Brasil por causa do drawback 

Um dirigente da Honda, ouvido em off, responsabilizou o drawback, para explicar a diferença de preço do City vendido no Brasil e no México. O drawback é a devolução do imposto cobrado pelo Brasil na importação de peças e componentes importados para a produção do carro. Quando esse carro é exportado, o imposto que incidiu sobre esses componentes é devolvido, de forma que o valor base de exportação é menor do que o custo industrial, isto é: o City é exportado para o México por um valor menor do que os R$ 20,3 mil. Mas quanto é o valor dos impostos das peças importadas usadas no City feito em Sumaré? A fonte da Honda não responde, assim como outros dirigentes da indústria se negam a falar do assunto. 

Ora, quanto poderá ser o custo dos equipamentos importados no City? Com certeza é menor do que a diferença de preço entre o carro vendido no Brasil e no México (R$ 15 mil). 

A propósito, não se deve considerar que o dólar baixo em relação ao real barateou esses componentes? 

A conta não bate e as montadoras não ajudam a resolver a equação. O que acontece com o Honda City é apenas um exemplo do que se passa na indústria automobilística. Apesar da grande concorrência, nenhuma das montadoras ousa baixar os preços dos seus produtos. Uma vez estabelecido, ninguém quer abrir mão do apetitoso Lucro Brasil. 

Ouvido pela AutoInforme, quando esteve em visita a Manaus, o presidente mundial da Honda, Takanobu Ito, respondeu que, retirando os impostos, o preço do carro do Brasil é mais caro que em outros países porque aqui se pratica um preço mais próximo da realidade. Lá fora é mais sacrificado vender automóveis. 

Ele disse que o fator câmbio pesa na composição do preço do carro Brasil, mas lembrou que o que conta é o valor percebido. O que vale é o preço que o mercado paga. 

E por que o consumidor brasileiro paga mais do que os outros? 

Eu também queria entender - respondeu Takanobu Ito - a verdade é que o Brasil tem um custo de vida muito alto. Até o McDonald aqui é o mais caro do mundo. 

Se a moeda for o Big Mac - 
confirmou Sérgio Habib, que foi presidente da Citroën e hoje é importador da chinesa JAC - o custo de vida do brasileiro é o mais caro do mundo. O sanduíche custa U$ 3,60 lá e R$ 14,00 aqui. Sérgio Habib investigou o mercado chinês durante um ano e meio à procura por uma marca que pudesse representar no Brasil. E descobriu que o governo chinês não dá subsídio à indústria automobilística; que o salário dos engenheiros e dos operários chineses não é menor do que o dos brasileiros. 

Tem muita coisa torta no Brasil - concluiu o empresário, não é o carro. Um galpão na China custa R$ 400,00 o metro quadrado, no Brasil custa R$ 1,2 mil. O frete de Xangai e Pequim custa U$ 160,00 e de São Paulo a Salvador R$ 1,8 mil. 

Para o presidente da PSA Peugeot Citroën, Carlos Gomes, os preços dos carros no Brasil são determinados pela Fiat e pela Volkswagen. As demais montadoras seguem o patamar traçado pelas líderes, donas dos maiores volumes de venda e referência do mercado, disse. 

Fazendo uma comparação grosseira, ele citou o mercado da moda, talvez o que mais dita preço e o que mais distorce a relação custo e preço: 

Me diga, por que a Louis Vuitton deveria baixar os preços das suas bolsas?, questionou. 

Ele se refere ao valor percebido pelo cliente. É isso que vale. O preço não tem nada a ver com o custo do produto. Quem define o preço é o mercado, disse um executivo da Mercedes-Benz, para explicar porque o brasileiro paga R$ 265.00,00 por uma ML 350, que nos Estados Unidos custa o equivalente a R$ 75 mil. 

Por que baixar o preço se o consumidor paga?, 
explicou o executivo. 

Em 2003, quando foi lançado, o EcoEsport, da Ford, não tinha concorrente. Era um carro diferente, inusitado. A Ford cobrou caro a exclusividade: segundo informações de uma fonte que tinha grande ligação com a empresa na época, e conhecia os custos do produto, o carro tinha uma margem líquida de US$ 5 mil. 

A montadora põe o preço lá em cima. Se colar, colou 

Quando um carro não tem concorrente direto, a montadora joga o preço lá pra cima, disse um dirigente do setor. É usual, até, a fábrica lançar o carro a um preço acima do pretendido, para tentar posicionar o produto num patamar mais alto. Se colar, colou. Caso contrário, passa a dar bônus à concessionárias até reposicionar o modelo num preço que o consumidor está disposto a pagar. 

Um exemplo recente revela esse comportamento do mercado. A Kia fez um pedido à matriz coreana de dois mil Sportage por mês, um volume que, segundo seus dirigentes, o mercado brasileiro poderia absorver. E já tinha fixado o preço: R$ 75 mil. Às vésperas do lançamento soube que a cota para o Brasil tinha sido limitada a mil unidades. A importadora, então, reposicionou o carro num patamar superior, para R$ 86 mil. E, como já foi dito aqui: pra que vender por R$ 75 mil se tem fila de espera pra comprar por R$ 86 mil? A versão com câmbio automático, vendida a R$ 93 mil, tem fila de espera e seu preço sobe para R$ 100 mil no mercado paralelo. 

Cledorvino Belini, que também é presidente da Fiat Automóveis e membro do Conselho Mundial do Grupo Fiat, responsabiliza os custos dos insumos pelo alto preço do carro feito no Brasil. Disse que o aço custa 50% mais caro no Brasil em relação a outros países e que a energia no País é uma das mais caras do mundo. 

A Anfavea está fazendo um Estudo de Competitividade para mostrar ao governo o que considera uma injusta concorrência da indústria instalada no Brasil em relação aos importadores. 

Os fabricantes consideram que o custo dos insumos encarece e prejudica a competitividade da indústria nacional. O aço comprado no Brasil é 40% mais caro do que o importado da China, que usa minério de ferro brasileiro para a produção, revelou Belini. Ele apontou também os custos com a logística como um problema da indústria nacional e criticou a oneração do capital. É preciso que o governo desonere o capital nos três setores: cadeia produtiva, na infraestrutura e na exportação de tributos, disse. 

Com a crise, o setor mostrou que tem (muita) gordura pra queimar. O preço de alguns carros baixou de R$ 100 mil para R$ 80 mil. Carros mais caros tiveram descontos ainda maiores. 

São comuns descontos de R$ 5 mil, 10 mil. Como isso é possível se não há uma margem tão elástica pra trabalhar? 

A GM vendeu um lote do Corsa Classic com desconto de 35% para uma locadora paulista, segundo um executivo da locadora em questão. O preço unitário foi de R$ 19 mil! 

As montadoras tradicionais tentam evitar o óbvio, que é a perda de participação para as novas montadoras, disse José Carlos Gandini, presidente da Kia e da Abeiva, a associação dos importadores de veículos. O dólar é o mesmo pra todo mundo. As montadoras também compram componentes lá fora, e muito. Além disso, os importados já pagam uma alíquota de 35%, por isso não se trata de uma concorrência desleal, ao contrário, as grandes montadoras não querem é abrir mão da margem de lucro. 

Mini no tamanho, big no preço 

Mini, Fiat 500, Smart são conceitos diferentes de um carro comum: embora menores do que os carros da categoria dos pequenos, eles proporcionam mais conforto, sem contar o cuidado e o requinte com que são construídos. São carros chiques, equipados, destinados a um público que quer se exibir, que quer estar na moda. Que paga R$ 60 mil por um carro menor do que o Celta que custa R$ 30 mil e já é caro. 

Onde estão os R$ 30 mil que o consumidor está pagando a mais pelo Smart e o Cinquecento e os R$ 70 mil a mais pelo Mini Cooper? 

A Mercedes-Benz, importadora do Smart, fez as contas a nosso pedido dos acessórios do minicarro. Ele tem quatro airbags, ar-condicionado digital, freios ABS com EBD, controle de tração e controle de estabilidade. Segundo a empresa, o custo desse pacote seria em torno de R$ 20 mil, considerando os preços de equipamentos para a linha Mercedes, uma vez que o Smart já vem completo e não dispõe dos preços desses equipamentos separados. 

Mesmo considerando esses preços ainda não se justifica os R$ 62 mil para um carro que leva apenas duas pessoas. 

A Fiat vende o Cinquencento por R$ 62 mil, exatamente, e não por acaso, o mesmo preço do Smart. O carro tem sete airbags, banco de couro, ar-condicionado digital, teto solar, controle de tração, mas é menor que o Celta. Esse pacote custaria, somando os valores dos equipamentos, conforme preços divulgados pela Fiat, R$ 24 mil. Portanto, no preço cobrado, de R$ 62 mil, tem uma margem de lucro muito maior do que a de um carro comum. 

E quem comprar o minúsculo Mini Cooper vai pagar a pequena fortuna de R$ 105 mil. 

Claro que tamanho não é documento, especialmente quando se fala de carro. Você poderia dizer que o Ferrari é do tamanho de uma Kombi. Mas o fato é que as montadoras posicionam seus produtos num determinado patamar sem levar em conta o tamanho, o tipo de uso ou o custo do produto, mas apenas o preço que o mercado paga, optando por vender mais caro em vez de priorizar o volume, ganhando na margem de lucro. 

Essa política pode ser válida para uma bolsa da Louis Vuitton, um produto supérfluo destinado a uma pequena parcela da elite da sociedade, ou mesmo para uma Ferrari, pra não sair do mundo do automóvel. Mas não deveria ser para um carro comum. 

Além disso, existem exemplos de carro muito bem equipado a preços bem mais baixos. O chinês QQ, da Chery, vem a preço de popular mesmo recheado de equipamentos, alguns deles inexistentes mesmo em carros de categoria superior, como airbag duplo e ABS, além de CD Player, sensor de estacionamento. O carro custa R$ 22.990,00, isso porque o importador sofreu pressão das concessionárias para não baixar o preço ainda mais. A ideia original - disse o presidente da Chery no Brasil, Luiz Curi - era vender o QQ por R$ 19,9 mil. Segundo Curi, o preço do QQ poderá chegar a menos de R$ 20 mil na versão 1.0 flex, que chega no ano que vem. Hoje o carro tem motor 1.1 litro e por isso recolhe o dobro do IPI do 1000cc, ou 13%, isso além dos 35% de Imposto Importação. 

As fábricas reduzem os custos com o aumento da produção, espremem os fornecedores, que reclamam das margens limitadas, o governo reduz imposto, como fez durante a crise, as vendas explodem e o Brasil se torna o quarto maior mercado do mundo. 

E o Lucro Brasil permanece inalterado, obrigando o consumidor a comprar o carro mais caro do mundo. 

Joel Leite - email: joelleite@autoinforme.com.br

Comentários:

Resumindo: 
O carro é muito mais caro no Brasil pq todo mundo paga caro e fica feliz. 
A montadora não tem porque baixar preços se com os preços altos todo ano tem recorde de venda e produção. 
Nenhum argumento justifica tamanha diferença de preços. Nos EUA os sindicatos são muito mais fortes, pressionam muito mais os salários, na Europa o custo dos imóveis é muito mais alto, e mesmo nesse lá lugares o carro é mais barato. 
A industria de autopeças trabalha com margens controladas pelas montadoras e as revendas tem margem de lucro media de 5%. 
A montadora pressiona todo mundo na cadeia de valor. Tanto pra frente (concessionária e consumidores finais) quanto pra trás (fornecedores). Só quem se dá bem nessa merda toda é a montadora. 
Outra coisa que dá indignação é isso que a CAOA faz com o brasileiro. É CHAMAR DE OTÁRIO NA CARA! Cobrar 5 mil reais a mais por um carro branco (que usualmente custa mil reais a menos do que a cor metálica) é no mínimo uma piada (depois que o vendedor te fala isso você fica esperando alguém te mostrar onde está a camera escondida pra poder dar aquela risadinha sem graça enquanto o Sérginho vem falando "ieié... pegadinha do malandro...").
E o pior é que o consumidor acaba sendo cúmplice dessa palhaçada. Assim como o consumidor de drogas financia o tráfico, o consumidor da classe média alta (talvez por falta de opção) acaba compactuando com esse absurdo.
Chega a dar nojo!

Brasileiro já paga mais caro por quase tudo

Notícia original:

http://exame.abril.com.br/seu-dinheiro/consumo/noticias/brasileiro-ja-paga-mais-caro-por-quase-tudo


Brasileiro já paga mais caro por quase tudo

De batom a carro, estudo da RC Consultores mostra que em uma cesta de 29 produtos, Brasil cobra mais que Estados Unidos, França, Reino Unido, Austrália e África do Sul


Quem costuma carimbar o passaporte internacional sabe: de eletroeletrônicos a roupas, é só deixar o Brasil para encontrar preços muito mais baratos no exterior. E a disparidade não se resume a valores praticados pelos mesmas lojas instaladas aqui e em países ricos, como Estados Unidos e Reino Unido. 
Na África do Sul, por exemplo, um mesmo tênis Nike encontrado no Brasil por 315 dólares é vendido com um desconto de 44% do lado de lá do globo. A diferença é ainda maior se o produto em questão é o videogame Xbox 360, da Microsoft. Se para os sul-africanos o produto sai por 515 dólares, os consumidores tupiniquins desembolsam mais que o dobro para levá-lo para casa.
Segundo os dados mais atuais da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), se o fluxo de riqueza produzido pelo Brasil fosse dividido entre todos os seus habitantes, cada um ficaria com 10.466 dólares. Enquanto esse valor é de 30.600 dólares nos EUA e 38.637 dólares na Austrália, os moradores da África do Sul praticamente empatariam conosco, com PIB per capita de 10.136 dólares.
Por que então nossos preços são tão caros? "É o fenômeno de sobreposição de impostos, típico de um modelo tributário caótico", afirma o economista Fábio Silveira, sócio da RC Consultores. Responsável pela coleta de dados, a RC comparou o custo dos mesmos itens no Brasil, Estados Unidos, França, Reino Unido, Austrália e África do Sul. 
De veículos a notebooks, passando por camisas e perfumes, foram 29 itens analisados pela empresa. Mas os resultados mostram que, no Brasil, apenas oito deles ficaram abaixo da média de preços apurada para o conjunto de países: máquina de lavar, calça jeans de loja de departamento, jornal, shampoo, leite, açúcar, café e cerveja. Considerando a cesta como um todo, pagamos o preço mais alto entre as nações pesquisadas. "Não somos competitivos na área de produtos de maior valor agregado porque as cadeias de produção são mais longas e o efeito de acumulação de tributos é mais notável", diz Silveira. 
No Brasil, três tipos de tributação acabam tornando o desembolso do consumidor mais oneroso. Do lado dos impostos sobre o consumo, a sopa de letrinhas inclui PIS, Cofins, ICMS e IPI, sendo que os dois últimos impostos variam de acordo com a utilidade do produto. "Quanto menos necessário ele for à população, maior será a carga tributária. Por isso, itens considerados de luxo ou que fazem mal à saúde acabam sendo mais caros", explica João Eloi Olenike, presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT).

As empresas também arcam com a tributação sobre a folha de pagamento, bancando INSS e FGTS para os funcionários, e com os tributos sobre o lucro, pagando imposto de renda e contribuição social. No caso dos produtos que vêm de fora, há o acréscimo do imposto de importação. 
Não por menos, a carga que incide sobre perfumes importados é de impressionantes 78,43%. Na prática, um frasco de Gucci Guilty que é vendido por 180 dólares no país, é encontrado por 66 dólares na Austrália e 95 dólares nos Estados Unidos. Olenike reforça que muitos eletroeletrônicos também são taxados como supérfluos pela legislação, contribuindo para que sejam vendidos a preços bem mais salgados no Brasil. "A tributação é muito alta sobre o preço final dos produtos. Isso acaba fazendo com que a pessoa que tenha menor poder econômico pague proporcionalmente mais, já que os valores finais são os mesmos para todo mundo", diz o presidente do IBPT. 
Paixão nacional, o carro talvez seja o exemplo mais cabal dos altíssimos preços com os quais os brasileiros lidam. Vendido por 69.310 dólares nas concessionárias daqui (em torno de 118.000 reais), o Hyundai Santa Fe é comprado pelos ingleses por 36.800 dólares. Nos Estados Unidos, o valor cai para 21.485 dólares - aproximadamente 36.600 reais, ou o preço de um carro popular como o Gol ou Palio no Brasil.
Juntos, IPI, ICMS, PIS e Cofins representam entre 27% e 36% do valor de um automóvel. A alíquota fica mais cara para os veículos com mais cilindradas. Os importados, por sua vez, também pagam seguro, frete e uma alíquota de 35% referente ao imposto de importação. Nas contas da Abeiva, associação das empresas importadoras, o automóvel de fora custará, em média, 2,7 vezes o preço do original em dólar ou euro.
A aritmética também deixa espaço para que a margem de lucro praticada pelas montadoras - que já é embutida no preço dos veículos nos países de origem - ganhe fermento no Brasil. Se multiplicado por 2,7, o valor do Hyundai vendido na Coréia do Sul seria de 66.000 dólares. Mas por aqui, ele é comercializado por 3.300 dólares a mais. “O lucro das empresas junta a fome com a vontade de comer”, afirma Fábio Silveira, da RC Consultores. Afinal, ainda que a carga tributária seja alta e a margem de lucro também, os consumidores continuam comprando. 
Para o especialista, os altos juros praticados no país também ajudam a explicar o valor dos produtos. “Quem precisa financiar para produzir um componente irá arcar com juros reais da ordem de 6,5% ao ano, uma taxa que entra no custo do processo produtivo. E isso não tem paralelo no mundo”, diz Silveira. 
Confira nas próxima páginas quanto custam os produtos em que há maior diferença de preços no Brasil e em outros cinco países do mundo:

Videogame Xbox 360
Videogame Xbox 360 4GB + Kinect
Estados Unidos - 299 dólares
França - 373 dólares
Austrália - 375 dólares
Reino Unido - 397 dólares
Média - 405 dólares
África do Sul - 515 dólares
Brasil - 1.196 dólares
Hyundai Santa Fe
Hyundai Santa Fe 
Estados Unidos - 21.845 dólares
Média - 31.367 dólares
Austrália - 34.850 dólares
Reino Unido - 36.799 dólares
França - 44.500 dólares
África do Sul - 58.888 dólares
Brasil - 69.310 dólares

Blu ray – X-men Origens
Blu-ray X-men Origens
Estados Unidos - 11 dólares
Média - 15 dólares
Reino Unido - 15 dólares
Austrália - 19 dólares
África do Sul - 25 dólares
França - 22 dólares
Brasil - 35 dólares

iphone4-460-jpg.jpg
Celular iPhone4 32GB
Estados Unidos - 299 dólares
Média - 589 dólares
Reino Unido - 993 dólares
Austrália - 941 dólares
África do Sul - 1.016 dólares
França - 1.064 dólares
Brasil - 1.323 dólares
Tênis Nike Air Max Courtballistec 3.3
Tênis Nike Air Max Courtballistec 3.3
Estados Unidos - 125 dólares
Reino Unido - 146 dólares
Média - 153 dólares
Austrália - 170 dólares
África do Sul - 175 dólares
França - 180 dólares
Brasil - 315 dólares
Batom MAC
Batom MAC
Estados Unidos - 15 dólares
Média - 20 dólares
Reino Unido - 22 dólares
África do Sul - 24 dólares
França - 25 dólares
Austrália - 34 dólares
Brasil - 45 dólares
Perfume Gucci Guilty
Perfume Gucci Guilty Feminino 75ml 
Austrália - 66 dólares
Estados Unidos - 95 dólares
Reino Unido - 99 dólares
Média - 107 dólares
França - 130 dólares
África do Sul - 134 dólares
Brasil - 189 dólares
Notebook Samsung NF210
Notebook Samsung NF210
Estados Unidos - 352 dólares
Média - 397 dólares
África do Sul - 415 dólares
Reino Unido - 425 dólares
França - 468 dólares
Austrália - 470 dólares
Brasil - 549 dólares
Fraldas Pampers
Fralda Pampers 104 unidades jumbo
Reino Unido - 16 dólares
África do Sul - 19 dólares
Austrália - 24 dólares
França - 28 dólares
Média - 32 dólares
Estados Unidos - 35 dólares
Brasil - 39 dólares




Comentários:

As montadoras são filhasdaputa e fodem com o consumidor e com os fornecedores. Isso é fato. Agora, a questão é a seguinte: como é possível pressionar as montadoras brasileiras para que elas diminuam suas margens e vendam carros a preços normais?

A única entidade que consegue fazer isso é o governo. Reduzindo impostos e burocracia de importação de automóveis. Dessa forma o governo estimularia importações independentes e aumentaria a competição entre os carros nacionais e os importados (inclusive os mais baratos - onde a demanda é maior).

Mas eles fazem justamente o contrário. O governo ao invés de deixar a livre concorrência ( entrada de carros importados) abaixar naturalmente as margens de lucro das montadoras no brasil, ele está aumentando taxa do produto estrangeiro (ou seja  reduzindo o efeito da competição)... Isso pra garantir a "segurança da industria nacional". As montadoras no brasil geram emprego (isso q elas dizem pro governo) mas por tras disso ta um a grana fdp q elas comem da gente. E não querem parar de roer esse osso. Diminuir a margem de lucro das montadoras é IMPENSÁVEL! E o jeito que elas dão pra não sucumbir perante a concorrência é comprar os governantes pra que façam coisas absurdas como essa. Por quanto será que eles se venderam?

Sobre o IPI

Noticia original:
http://quatrorodas.abril.com.br/noticias/governo-eleva-ipi-carros-importados-302483_p.shtml
Governo eleva IPI de carros importados
Medida aumentará preços em cerca de 30% e valerá até o final do ano que vem
Por Marcio Ishikawa | 15/09/2011

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou no início da noite desta quinta-feira, dia 15 de setembro, o aumento de 30 pontos percentuais no IPI – Imposto sobre Produtos Industrializados – para carros importados. Para as fabricantes instaladas no Brasil, o aumento não será aplicado desde que haja no mínimo 65% nacionalização do veículo (inclui o Mercosul). A medida vale já a partir desta sexta-feira, dia 16, e valerá pelo menos até o final de 2012.
Além disso, as fabricantes precisam preencher pelo menos 6 dentre 11 requisitos de investimentos, como montagem do veículo no Brasil, estampagem, fabricação de motores e transmissão. Ainda no anúncio, Mantega informou que, inicialmente, todas as empresas aqui instaladas estão habilitadas, mas que uma certificação será feita pelo Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior nos próximos 60 dias.
Na prática, a medida eleva em cerca de 30% o custo de um veículo importado. As principais marcas afetadas são as chinesas JAC e Chery, que nos últimos meses vinham aumentando significativamente a sua participação no mercado nacional. Aplicando-se a média de 30% de aumento, um JAC J3 deve subir de R$ 37 990 para algo em torno de R$ 49 270, enquanto um Chery QQ, cuja tabela aponta R$ 23 990, pode passar a ser vendido por R$ 31 190.
Mantega, em seu pronunciamento, justificou a medida como uma forma de proteger os empregos nacionais. “O consumo interno está crescendo, mas a demanda está sendo atendida principalmente através das importações”, disse. “Corremos o risco de começar a exportar empregos. As medidas que anunciamos hoje servem para estimular a produção nacional.”

Comentários:

É o seguinte, essa conversa de "proteger a indústria nacional" é uma grandessíssima babaquice, em todos os sentidos.  Porque "proteger a indústria nacional" é, na prática sustentar as ineficiências da cadeia produtiva do país. Então, ao invés de estimular a concorrência em todos os setores (calçadista, têxtil, automobilistico, vitivinicultor, eletrônico e etc...) o governo prejudica o consumidor brasileiro fazendo reserva de mercado para as empresas nacionais ineficientes. Acho que a diferença da linha de raciocínio é que eu acredito que o ideal seria diminuir a tributação mesmo, mas diminuir sobre todos os produtos (nacional e importado) e equalizar a carga tributária dos nacionais e importados para deixar a seleção natural agir sobre a indústria nacional...

Só pra vcs terem uma idéia de como é uma merda essa "proteção da indústria nacional" patrocinada pelo governo, um exemplo de um negócio: no brasil, a moda agora é instalar parques de geração de energia eólica. Um parque é composto, em média, por 60 torres de geração de energia (aquelas torres de 100 mts de altura, com um aerogerador em cima). 
Cada torre dessas custa (só a torre de aço, sem a turbina na ponta), no brasil R$1.1Milhão (com aço fornecido pela única fornecedora desse tipo de aço no Brasil, a Usiminas). Se nós pudessemos importar de Portugal (com mão de obra européia cara pra disgreta, aço brasileiro comprado por Portugal, que não produz um grama de aço) a gente conseguiria compra a mesmíííssima torre por R$520 mil, com impostos e entregue montada dentro do parque eólico aqui no Brasil. MASSSSS, se formos comprar essas torres, não conseguimos financiamento do BNDES (por não ser uma torre nacional), então compraremos a torre de aço mais cara do mundo pra poder conseguir financiar a porra do parque, porque a porra do banco não financia a merda da torre importada.